Confidencial

Drama retrata mesma história do filme "Capote", sobre o período em que o famoso escritor realizou seu trabalho mais conhecido, "A Sangue Frio". Irregular, o filme chama atenção pelo bom elenco coadjuvante
Por André Azenha, editor (01/01/2009) // Comente

Confidencial (Infamous, EUA, 2006). Direção: Douglas McGrath. Roteiro: Douglas McGrath, George Plimpton. Elenco: Toby Jones, Daniel Craig, Sandra Bullock, Sigourney Weaver, Gwyneth Paltrow, Isabela Rosselini, Jeff Daniels. Drama. Drama / Biografia. 110 min. (Cor).

“Confidencial” é um grande exemplo de como duas obras artísticas podem ser realizadas de maneiras completamente diferentes a partir de um mesmo fato, ou um mesmo objeto. Assim como o premiadíssimo “Capote” (2005), de Bennett Miller, a trama dirigida e roteirizada por Douglas McGrath narra o período em que o famoso escritor Truman Capote dedicou-se à criação de sua obra-prima, “A Sangue Frio” (“In Cold Blood”), um dos maiores romances do século XX e precursor do jornalismo literário – obras que empregam técnicas narrativas de ficção em histórias verdadeiras, pesquisadas como notícia.

Em 15 de novembro de 1959, Truman (Toby Jones, “O Despertar de Uma Paixão“) leu uma nota no jornal relatando o assassinato de uma família, cujos quatro membros foram encontrados mortos na própria residência em Holcomb, no Kansas. O fato da cidadezinha no meio do nada, povoada por vizinhos de longa data, ser o local da barbárie, fez o escritor arrumar as malas e partir com o intuito, no início, de escrever uma reportagem sobre o ocorrido. Com o passar do tempo, a demora para a polícia prender os bandidos, e depois com a lentidão do processo penal, levaram Capote a mergulhar nos acontecimentos, envolvendo-se intensamente com um dos acusados, Perry Smith (interpretado pelo atual James Bond, Daniel Craig).

Para falar desse filme, impossível não compará-lo com o de 2005. Ambos foram rodados na mesma época, mas os produtores de “Confidencial” decidiram adiar em um ano o lançamento, para evitar comparações. Ledo engano, afinal, seria o mesmo que não querer comparar dois quadros concebidos por pintores diferentes cuja inspiração foi a mesma. “Capote” acabou se tornando sucesso de crítica, arrebatando prêmios festivais mundo afora e alcançando cinco indicações ao Oscar, vencendo em Ator, pela espetacular atuação de Philip Seymour Hoffman.

E se há uma desvantagem em “Confidencial”, ela está na figura central. Enquanto Hoffman precisou praticamente encarnar a figura do escritor, dando ao personagem um tom distante, manipulador e praticamente introspectivo, o ator Toby Jones não precisou de tanto, pois tem um porte físico parecido, e acabou criando uma persona mais sensível e erroneamente amedrontada (em alguns instantes) com Smith – ainda assim Jones ganhou o prêmio da crítica em Londres.

Já os pontos a favor da produção são a narrativa eficiente e o restante do elenco formado por artistas graúdos como o próprio Craig (que merece parágrafo à parte), Sandra Bullock (vivendo uma assistente Harper Lee mais envolvida do que a bem interpretada por Catherine Keener anteriormente), Sigourney Weaver, Gwyneth Paltrow, Isabela Rosselini e Jeff Daniels (“A Lula e a Baleia“).

“Capote” tem uma metragem menor, 98 minutos, mas parece demorar pacas; já a obra de Mc Grath dá maior sensibilidade aos protagonistas, indo fundo em suas emoções, e possui um texto ligeiro, beneficiado pelas cenas que remetem a um “talk show póstumo” (nada a ver com documentário como andaram falando/escrevendo por aí), onde amigos e conhecidos do escritor aparecem relatando suas lembranças, qualidades e defeitos do próprio.

As diferentes abordagens refletem as origens dos roteiros. O filme de Bennett Miller se inspirou numa austera biografia de Gerald Clarke, enquanto McGrath partiu de um livro de George Plimpton baseado em relatos e fofocas de pessoas que conheceram Capote.

Entre as atuações, quem rouba a cena é Craig. Com uma missão complicada, pois sua escolha para o papel a princípio parecia um erro enorme do diretor, já que o Perry Smith de verdade era um rapaz franzino, o novo 007 compensa a grande estatura e os músculos transformando o assassino em uma pessoa que mescla um tom assustador com momentos de ternura, conseguindo até sensibilizar o público em alguns momentos. Tamanho desempenho rendeu ao astro a indicação de Ator Coadjuvante no Independent Spirit Awards.

Em relação a sua verossimilhança enquanto relato histórico; “Confidencial” erra, e erra feio, ao mostrar o instante do assassinato da família Clutter. Pai e filho foram mortos em quartos diferentes, e não no mesmo cômodo. Além disso, Smith jamais chegou a bater ou ameaçar fisicamente o escritor.

Na dúvida de escolher uma das duas produções, a dica é assistir as duas e ler o livro, que tornou Truman Capote rico financeiramente e o um dos escritores mais famosos dos Estados Unidos. E assim como diz o longa, fez com que ele alcançasse a glória, e ao mesmo tempo, sua decadência, pois nunca mais escreveu nada relevante. Os enforcamentos de Perry Smith e Dick Hickock não resultaram em apenas duas mortes, mas três. Como curiosidade, George Axelrod, roteirista do fofo “Bonequinha de Luxo” (“Breakfast at Tiffany’s”, 1961), longa protagonizado pela linda Audrey Hepburn (vivendo Holly Golightly, heroína rock), se inspirou num livro de Capote para criar a trama.

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André Azenha é jornalista, editor dos sites CineZen e CulturalMente Santista, autor do livro Poesia a Quatro Mãos, feito em parceria com sua mãe, a poetisa Regina Azenha. Trabalhou com o crítico de cinema Rubens Ewald Filho, escreveu para a revista Época São Paulo e colabora com veículos de imprensa de vários estados. Em 2011, mediou o ciclo Documentários Comentados, no SESC Santos. É assessor de imprensa e realiza encontros culturais, a maior parte de caráter beneficente.


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