Coisa Mais Linda – Histórias e Casos da Bossa Nova

Coisa Mais Linda (Idem, Brasil, 2005). Direção e roteiro: Paulo Thiago. Elenco: Carlos Lyra, Roberto Menescal, Johnny Alf, Billy Blanco, João Donato, Oscar Castro Neves, Bebeto, Leny Andrade, Wanda Sá, Nélson Motta, Cacá Diegues, Miele. Documentário. 126 min. (Cor).

Será que o brasileiro tem dimensão do que foi a Bossa Nova e as mudanças musicais surgidas a partir de então? Bossa Nova é um estilo musical ou foi um movimento? O que veio antes: o ovo ou a galinha? Para quem quer tentar compreender o que aconteceu entre os anos 50 e os 60 – e que serviu para colocar o Brasil no mapa musical do planeta – o documentário “Coisa Mais Linda” (nome em homenagem à música homônima de Carlos Lyra e Vinícius de Morais) pode abrir os olhos. Dirigido e roteirizado por Paulo Thiago, o filme busca retratar fielmente os acontecimentos que levaram ao surgimento da Bossa Nova até seu auge.

A maior parte da produção é narrada pela dupla Carlos Lyra e Roberto Menescal. Os dois contam como se conheceram no colégio, como surgiram as batidas (sim, na bossa nova existem vários “tipos de batida”, e cada músico possui seu “estilo”) e que também ainda apresentam algumas músicas. O filme é um verdadeiro bálsamo visual e auditivo para quem gosta de Tom Jobim, João Gilberto e seus companheiros, mostrando fotos de arquivos e imagens de apresentações antológicas, desde os bares do Rio de Janeiro até a grande aparição no Carnegie Hall (quando a Bossa Nova ganhou os Estados Unidos).

É possível notar o brilho no olhar em depoimentos marcantes de feras da época como os próprios Lyra e Menescal, Johnny Alf, Billy Blanco, João Donato, Oscar Castro Neves, Bebeto, Leny Andrade, Wanda Sá, entre outros, e ainda a opinião de gente como Nélson Motta, o cineasta Cacá Diegues, o jornalista Tárik de Souza e até de Miele (que organizava shows). Os ambientes escolhidos para as declarações são casas noturnas da época (que resistiram ao tempo) e residências e apartamentos onde ocorreram os encontros que ajudaram a forjar o movimento (sempre no Rio de Janeiro).

Os fatos são narrados passo a passo, explicando como os personagens foram apresentados uns aos outros, como nasceram inúmeras canções, a revolução dos diminutivos de João Gilberto (que abusava nos “inhos” nas canções) e de onde vieram as influências. Destaque para o emocionante depoimento de Paulo Jobim (filho de Tom), que retrata a figura paterna de maneira simples, gentil e emocionada. E também quando Roberto Menescal recorda o dia que conheceu João Gilberto, que invadiu uma festa de aniversário em sua casa, e Roberto, ao ficar sabendo de quem se tratava, passou dias e dias pelo Rio de Janeiro ao lado do compositor baiano.

Entre as afirmações, todos garantem que a Bossa Nova não é uma imitação do jazz e há reverência às figuras de Tom Jobim e João Gilberto. Ambos aparecem tocando em um verdadeiro deleite para o espectador.

Ainda sobra tempo para homenagens merecidas para Nara Leão e Vinícius de Moraes (que já foi reverenciado em “Vinícius”) e não faltam shows e cenas antológicas. Tudo bem enquadrado e com a trilha sonora mais do que espetacular. E dá-lhe “Garota de Ipanema”, “Chega de Saudade”, “Corcovado”, “Ah! Se Eu Pudesse”, “Influência do Jazz” e muitas outras. Para não ficar só nas gravações de época, alguns músicos se apresentam exclusivamente para o filme.

Além de tudo, “Coisa Mais Linda” mostra como surgiu a idéia do violão mais o “banquinho”, mas que não era só isso. Em alguns casos havia um bom piano acompanhando contrabaixo e bateria. Para quem não entende nada do assunto, essa obra consegue ensinar o que foi esse movimento. Para quem já gosta e manja, se torna uma diversão garantida, já que os antigos ídolos reaparecem (no cinema foram vários os comentários do tipo: “Olha como ele está!”) e a nostalgia abraça os corações que viveram essa época.

Para aqueles que acham que a Bossa Nova é “coisa de velho” ou uma “coisa chata” e para os roqueiros que adoram esculhambar a música brasileira, vale lembrar que gente como os caras da já extinta banda Stones Templo Pilots, os Beastie Boys e até mesmo o ex-Nirvana Dave Grohl (“In Hour Honor”, álbum do Foo Fighters, tem uma baladinha chamada “Stil”l que lembra beeeem a nossa bossa) curtem a música tupiniquim e tiveram influência do nosso cancioneiro em algum momento de suas carreiras.

Adoraria ter escrito esse texto de uma maneira mais poética, já que depois de conferir esse filme é impossível não reverenciar essa fase da música brasileira. E mesmo sabendo que alguns desses artistas já criticaram o rock de maneira um pouco rancorosa e que nem tudo feito nesse período é digno de nota, fica clara a importância da Bossa Nova para a música do nosso país e, acima de tudo, serve para mostrar (apesar da influência de um estilo musical estrangeiro, o jazz) que o Brasil já fez a cabeça de gente lá fora. Uma obra mais do que recomendável e merece ser conferida. Já a poesia fica para os mestres.

Nota: O filme ganhou o Lente de Cristal de Melhor Som e o Troféu Orgulho de Ser Brasileiro, no Festival de Cinema Brasileiro de Miami , e foi eleito o melhor Filme – Voto Popular, no Festival de Cinema Brasileiro de Paris.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *